Hoje, 17 de setembro, é o Dia da Compreensão Mundial. Uma data dedicada ao diálogo, à tolerância e à capacidade de compreender o outro, mesmo quando pensamos diferente. Bonito. Necessário. Mas confesso que, olhando para o Brasil, existe muita coisa que está ficando difícil de compreender.

É difícil para uma mãe compreender por que entra no supermercado com cem reais e sai com uma sacola cada vez menor.

É difícil compreender por que trabalhar, pagar impostos e cumprir a lei não garantem sequer algo básico: sentir-se seguro na rua.

É difícil compreender um país no qual o crime organizado adquiriu tamanho poder econômico e territorial que o próprio governo precisou criar, neste ano, um programa nacional voltado à descapitalização das facções, ao combate ao tráfico de drogas e armas, ao sistema prisional e à inteligência policial.

E aqui não adianta slogan. Segurança pública exige inteligência, fronteiras seguras, integração entre União e Estados, investigação financeira, sistema penitenciário funcional e polícia equipada. O cidadão não quer saber qual governo ficará com os créditos. Ele quer voltar vivo para casa e, de preferência, com todos os seus pertences com ele.

Também está difícil compreender a sucessão de escândalos e investigações envolvendo dinheiro público ou as relações entre o poder econômico e o poder político. Tivemos o caso das fraudes envolvendo descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS, com o irmão e o filho do presidente Lula como suspeitos. Temos o gigantesco caso Banco Master, no qual investigações apuram supostas fraudes financeiras bilionárias, corrupção de agentes públicos e até acesso do grupo de Daniel Vorcaro a informações restritas da Polícia Federal, do Ministério Público e da Interpol.

E está difícil compreender o próprio Supremo. Não porque ministros não possam divergir. Devem divergir. Mas porque o país assistiu, nos últimos dias, a uma crise interna extraordinária, com decisões de um ministro suspensas por outro, acusações recíprocas, questionamentos sobre investigações e, no dia 15, a uma sessão vergonhosamente histórica para discutir a possibilidade de investigação criminal contra um integrante da própria Corte.

Quando até aqueles encarregados de interpretar a Constituição discutem publicamente os limites das próprias competências, é natural que o cidadão cobre clareza, transparência e critérios iguais para todos.

E o Congresso? Também merece cobrança. Porque representação política não se mede pelo número de seguidores. Não se mede por curtidas. E muito menos pela quantidade de vídeos começando com: “BOMBA!”. Bomba no título. Bomba nas redes sociais. Mas a bomba, muitas vezes, fica só no vídeo.

Fiscalizar exige:

  • Requerimento;

  • Voto;

  • Projeto;

  • Investigação dentro das competências legais;

  • Cobrança institucional;

  • E, principalmente, resultado.

Rede social pode informar o eleitor. Não substitui mandato.

Aqui está, então, o grande paradoxo deste Dia da Compreensão Mundial. Precisamos compreender quem pensa diferente. Precisamos compreender as diferenças sociais, religiosas, culturais e políticas. Precisamos recuperar a capacidade de conversar sem transformar adversário em inimigo.

Mas compreensão não pode significar conformismo. Compreender não é fechar os olhos. Não é aceitar corrupção. Não é normalizar a violência. Não é conviver resignadamente com o narcotráfico. Não é considerar inevitável a insegurança. E não é aceitar que autoridades de qualquer Poder estejam submetidas a padrões diferentes daqueles impostos ao cidadão comum.

A verdadeira compreensão exige entender o problema para poder enfrentá-lo. Porque tolerância é uma virtude. Paciência também. Mas nenhuma sociedade melhora quando transforma indignação legítima em resignação permanente.

"No Dia da Compreensão Mundial, talvez o Brasil precise entender que compreender o outro é uma virtude; acostumar-se com aquilo que está errado não é compreensão. É desistência. E nós, povo brasileiro, não vamos nunca desistir de ter o Brasil que merecemos."