Defender a liberdade parece simples. Até chegar o preço. Perder amigos. Ser atacado nas redes. Ser rotulado. Ter uma frase retirada do contexto. Ser transformado numa caricatura. Ficar nas sombras do algoritmo e até levar processo por manifestar sua opinião. Eu e muitos colegas jornalistas somos exemplos vivos desta realidade.
É desse problema que trata Gloria Álvarez no livro “Como defender a liberdade sem se destruir no processo”, lançado no Brasil neste ano. A obra aborda o custo emocional e social de defender ideias em um ambiente de cancelamentos, linchamentos digitais e pressão permanente por pertencimento. O livro transmite a mensagem de que você não precisa pertencer a uma tribo para defender uma ideia.
Gloria ficou conhecida combatendo o populismo e o socialismo latino-americano. Mas hoje também critica setores da direita quando, segundo ela, passam a defender a censura ou querem impor um único modo de vida. Em entrevista sobre o livro, ela resumiu o perigo: numa sociedade cada vez mais dividida, as pessoas começam a acreditar que o seu lado é sempre o lado da liberdade. E esse é o erro.
Liberdade que vale apenas para quem pensa como eu não é liberdade. É privilégio. Defender a liberdade significa:
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Aceitar o direito do outro de dizer aquilo que eu não gostaria de ouvir.
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Combater uma ideia sem destruir quem a defende.
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Argumentar sem desumanizar.
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Não entregar nossa consciência a um político, a um influenciador, a um partido, nem a um algoritmo.
Porque as redes sociais descobriram um negócio extraordinariamente lucrativo: a nossa raiva. Quanto mais indignados ficamos, mais comentamos. Quanto mais atacamos, mais compartilhamos. Quanto mais nos dividimos entre “nós” e “eles”, mais tempo permanecemos conectados. E chega um momento em que acreditamos estar defendendo uma causa, quando, na verdade, a causa passou a controlar a nossa vida.
A obra de Gloria trata justamente desse custo humano: cyberbullying, perseguição, cancelamento e desgaste psicológico. A proposta não é abandonar o debate público, mas aprender a participar dele sem permitir que a batalha política destrua o indivíduo.
Isso exige uma disciplina que está desaparecendo: discordar sem odiar. Debater sem cancelar. Defender princípios sem transformar políticos em ídolos. Reconhecer um erro cometido pelo nosso próprio lado. E, principalmente, continuar sendo capaz de conversar com quem pensa diferente.
Porque liberdade não é gritar mais alto. Liberdade é não precisar silenciar ninguém para sustentar aquilo em que acreditamos. Talvez seja essa a grande provocação do livro: não basta derrotar o autoritarismo do outro. É preciso impedir que, na tentativa de derrotá-lo, o autoritarismo nasça dentro de nós.
"Defenda suas ideias com toda a força. Mas nunca entregue a elas aquilo que você diz estar defendendo: a sua própria liberdade."