Luciano Melo, da cidade do Recife, escolheu um título extraordinário para seu livro: Entre o Toque e o Abismo. A obra trata de um dos grandes fenômenos do nosso tempo: a nossa crescente dependência das telas e o impacto que isso provoca nas relações humanas.

Vejamos o impacto no programa eleitoral que começou nesta semana. A partir de agora, nossos celulares serão inundados por vídeos, Reels, posts, cortes, memes e frases de efeito. Candidatos perfeitamente enquadrados, iluminados e editados. E não há nada de errado nisso. As redes sociais democratizaram a comunicação política. Permitiram que um candidato fale diretamente com milhões de pessoas sem depender dos meios tradicionais.

Mas existe um problema: a democracia não pode caber inteira dentro de uma tela de seis polegadas.

Porque entre o eleitor e o candidato existe algo que nenhum algoritmo consegue substituir: o contato humano. Por isso, nesta campanha, saia das redes também. Vá a um comício. Vá a uma caminhada. Encontre o candidato. Aperte sua mão. E, principalmente, pergunte:

  • Como ele pretende reduzir a violência?

  • Como vai gerar empregos?

  • Como pretende equilibrar as contas públicas?

  • O que fará pela educação?

  • Quais são seus compromissos e com quem?

E, se discordar, critique. Com educação. Com firmeza. Com argumentos. Porque candidato não é celebridade. É candidato a empregado do cidadão.

Existe outra observação a fazer. Na internet, o político controla quase tudo: escolhe o cenário; se a fala falha, repete a gravação; corta a resposta ruim; publica somente o melhor momento. No encontro presencial, é diferente. Ali não existe filtro. Você pergunta e observa não apenas o que ele responde, mas como responde. Se conhece o assunto. Se foge da pergunta. Se demonstra respeito diante de uma crítica. Se consegue conversar com alguém que pensa diferente. Isso também revela caráter.

Talvez o desafio da eleição de 2026 seja não permitir que a tecnologia, criada para aproximar pessoas, termine afastando o eleitor justamente de quem pretende representá-lo. As redes precisam servir como porta de entrada para a política, não como substitutas da participação política. Compartilhar um vídeo é participação. Defender uma ideia também. Mas democracia exige presença. Fiscalização. Cobrança. Porque existe uma diferença enorme entre seguir um candidato e conhecer um candidato.

Nas próximas semanas, teremos uma oportunidade extraordinária. Saia da bolha. Encontre candidatos de quem você gosta e, principalmente, escute também aqueles dos quais você discorda. Questione todos. Porque o voto consciente não nasce da idolatria; nasce da informação.

Luciano Melo nos provoca com uma imagem poderosa: entre o toque e o abismo. Talvez na política também exista esse risco. De um lado, o toque da tela. Do outro, o abismo da distância. No meio está aquilo que sustenta qualquer democracia: o cidadão presente.

"Nesta eleição, use as redes para conhecer propostas. Mas saia delas para conhecer pessoas. Porque democracia não se constrói apenas com o toque dos dedos numa tela; constrói-se olhando nos olhos de quem pretende governar o nosso futuro."