Existe uma frase atribuída ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche que deveria ser ensinada em todas as escolas de formação política: "A moral tem critérios estéticos".
À primeira vista, parece uma frase difícil de ser interpretada. Mas ela revela que, muitas vezes, as pessoas não julgam um ato pelo que ele realmente representa. Julgam pela simpatia ou antipatia que sentem por quem o praticou. É como se a moral tivesse deixado de ser um conjunto de princípios para se transformar em um concurso de popularidade.
Se o erro é cometido pelo adversário, ele é imperdoável. Se é cometido pelo aliado, rapidamente surgem justificativas: "Foi perseguido", "Foi injustiçado", "Foi mal interpretado", "Todo mundo faz igual".
Nietzsche chamava a atenção justamente para esse comportamento humano: a tendência de moldar nossos critérios morais conforme nossas paixões. E, talvez, não exista exemplo mais evidente disso do que a política brasileira.
Tomemos o caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em processos cujas decisões foram confirmadas por diferentes instâncias do Poder Judiciário. Anos depois, essas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões processuais ligadas à competência do juízo responsável pelos casos, sem que houvesse um novo julgamento declarando sua “descondenação” quanto ao mérito das acusações.
Ainda assim, milhões de brasileiros continuam depositando nele sua confiança política. E aqui não cabe discutir o direito de votar. Cada cidadão é livre para escolher seu candidato. O que merece reflexão é outra coisa.
Se exatamente os mesmos fatos envolvessem um político do campo ideológico oposto, será que essas mesmas pessoas reagiriam da mesma maneira? Ou estariam pedindo prisão, cassação e banimento da vida pública? Nós, conservadores, já sabemos a resposta. Essa é a pergunta que revela o verdadeiro sentido da frase de Nietzsche.
Quando a moral muda conforme muda o personagem, ela deixa de ser moral. Passa a ser conveniência. Passa a ser torcida. Passa a ser paixão.
Quando me perguntam a diferença entre os esquerdistas progressistas e os conservadores liberais de direita, eu respondo: somos diferentes nos nossos valores. A verdadeira ética não escolhe partido. A corrupção não muda de natureza conforme a cor da bandeira. O abuso de poder não se torna aceitável porque foi cometido por alguém de quem gostamos.
Uma democracia madura exige exatamente essa capacidade de separar pessoas de valores. O cidadão pode admirar um governante. Pode concordar com suas ideias. Pode votar nele. Mas jamais deveria perder a capacidade de exigir que seja investigado, julgado ou sentenciado se cometeu algum ilícito.
Na direita não temos “corruptos de estimação”. Eu quero mesmo que se exploda qualquer político da direita se for pego roubando o dinheiro do povo. E tenho certeza de que, se o exemplo de Lula fosse com algum líder da direita, ele não teria votos para voltar a ser presidente em função dos ilícitos provados por três instâncias judiciais.
Líderes passam. Instituições permanecem. Governos terminam. Mas os valores que sustentam uma sociedade precisam continuar de pé, sem importar a ideologia.
Sem nenhuma dúvida, esta é a maior crise do nosso tempo. Não a crise econômica. Não a crise política. Mas a crise da coerência e de valores. Vivemos uma época em que muitos deixaram de defender valores para defender indivíduos. E, quando isso acontece, o julgamento deixa de ser guiado pela Justiça e passa a ser guiado pela conveniência.
Nietzsche estava certo. A moral, para muita gente, tornou-se apenas estética. Depende da aparência. Depende do lado da arquibancada. Depende do nome estampado na camisa. Mas uma nação séria só se fortalece quando compreende que princípios precisam valer para todos. Inclusive para aqueles com quem concordamos.
"O maior sinal de maturidade política não é defender um líder até o fim, mas ter coragem de exigir dele o mesmo padrão moral que exigimos dos seus adversários."