Na madrugada de 24 de agosto de 1572, os sinos começaram a tocar em Paris. Não anunciavam uma celebração. Anunciavam uma tragédia. Começava aquilo que a História conheceria como a Noite de São Bartolomeu.
Para compreender o massacre, precisamos voltar no tempo. Em 1517, Martinho Lutero havia apresentado suas famosas 95 Teses. O que começou como uma contestação religiosa transformou-se numa ruptura histórica. A Reforma Protestante avançou pela Europa. Depois, veio João Calvino. E, na França, seus seguidores ficaram conhecidos como huguenotes.
O problema é que as diferenças religiosas rapidamente se misturaram com disputas políticas. Católicos e protestantes deixaram de ser apenas pessoas com crenças diferentes. Passaram a enxergar o outro lado como uma ameaça. E, quando uma sociedade transforma o adversário em inimigo, a razão começa a desaparecer.
Em 1572, tentou-se justamente o contrário. A princesa católica Margarida de Valois casou-se com o protestante Henrique de Navarra, futuro Henrique IV. O casamento deveria simbolizar a reconciliação. Muitos líderes huguenotes foram a Paris. Poucos dias depois, houve uma tentativa de assassinato do almirante Gaspard de Coligny, importante liderança protestante. Coligny sobreviveu, mas o medo de uma reação dos huguenotes cresceu dentro da corte. O rei Carlos IX acabou autorizando a eliminação das lideranças protestantes.
E aquilo que começou como assassinatos direcionados transformou-se numa carnificina. Casas foram invadidas. Pessoas foram perseguidas pelas ruas. Corpos foram lançados no Rio Sena. A violência saiu de Paris e alcançou outras cidades. Milhares morreram. E por quê? Porque, antes de matar pessoas, uma sociedade precisa matar uma ideia: a ideia de que o outro continua sendo um ser humano, mesmo quando pensa diferente.
E é exatamente aí que a Noite de São Bartolomeu deixa de ser apenas uma aula de História e se transforma numa advertência.
Hoje não temos católicos e huguenotes travando uma guerra religiosa nas ruas brasileiras. Mas estamos no tempo da direita contra a esquerda. Conservadores contra progressistas. Lulistas contra bolsonaristas. E começamos a utilizar palavras perigosas:
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Traidor.
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Fascista.
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Inimigo.
Precisamos tomar cuidado. Porque existe uma enorme diferença entre dizer: "Sua ideia está errada" e dizer: "Você não deveria ter o direito de defender essa ideia".
A democracia existe justamente para permitir que pessoas profundamente diferentes convivam sob as mesmas regras. Você não precisa gostar da opinião do outro. Pode criticá-la. Pode combatê-la com argumentos. Pode derrotá-la numa eleição. Mas não pode querer eliminar o direito do outro de pensar diferente. E isso vale para todos.
A História demoraria décadas para encontrar alguma pacificação na França. Henrique de Navarra tornou-se Henrique IV e, em 1598, promulgou o Edito de Nantes, concedendo importantes direitos religiosos e civis aos huguenotes. Foi uma espécie de anistia. Depois de tanto sangue, surgiu uma conclusão que poderia ter sido compreendida antes: era necessário aprender a conviver.
Voltando ao Brasil. Precisamos aprender a discordar sem nos destruir. Precisamos substituir o fanatismo por argumentos. O ódio por debate. E os inimigos por adversários.
A História demonstra que, quando uma sociedade começa a acreditar que possui exclusivamente a verdade, logo começa a acreditar que aqueles que discordam são o problema. E, quando o diferente passa a ser considerado o problema, eliminá-lo começa a parecer a solução.
"A Noite de São Bartolomeu começou muito antes de tocar o primeiro sino: começou quando pessoas deixaram de enxergar adversários e passaram a enxergar inimigos. Que o Brasil nunca precise de uma tragédia para reaprender que democracia significa, antes de tudo, o direito de continuar diferente."